25 de maio de 2014

A Garota Invisível - Marília Prata


A história que estou prestes a contar não trata de super-heróis, como você possa imaginar. Ela é sobre uma garota.

A garota invisível.

Ela nasceu anos atrás, na madrugada, enquanto a cidade era refém de uma chuva torrencial... Ou teria sido durante o dia, numa manhã em que o sol brilhava como cristal? Era difícil lembrar; as cortinas fechadas escureciam o quarto da maternidade. Ou será que toda aquela escuridão era proveniente da ambulância, que vinha a toda velocidade?

De modo ou de outro, uma coisa podia ser afirmada: a garota invisível tinha um nome, e isso nada nem ninguém contestava. Mas agora me falha a memória, e eu não saberia dizer. Beatrice, Sophia ou Louise, qual desses nomes deveria ser?

Bem, dessas informações, nenhuma verdadeiramente importava. Porque, da garota invisível, ninguém jamais lembrava.

A escola era um grande problema para a garota invisível. Ela tentou todos os modos de interação com seus colegas – sorrisos, acenos, às vezes, até tímidas conversas. Nada daquilo, contudo, adiantava.  Ninguém nunca na garota invisível atenção prestava.

Em casa, a situação também não era das melhores. O pai era muito ausente; o humor da mãe, um dos piores.

Um dia, a garota invisível cogitou se não passava despercebida por sua extrema palidez. Decidiu ir à praia, pegou um bronze. Não funcionou. Sua pele sensível tornou-se vermelha e ardente, e, ainda por cima, depois de alguns dias descamou.

Bufante, a garota invisível foi para seu quarto, deitar-se. Desejou, então, ser um fantasma; quem sabe, assim, pelo menos um médium a avistasse.

De todos os amigos imaginários da garota invisível, o Sr. Espelho lhe era o mais especial. Refletindo sua imagem diariamente, ele a lembrava de que ela era real. Ela não imaginava que pudesse existir, na face da Terra, amigo mais leal.

Mas nem tudo que é bom dura para sempre, e uma tragédia aconteceu. Em uma manhã nublada (ou uma noite iluminada?), Sr. Espelho morreu.

Em desespero, a garota invisível ajoelhou-se e, com a visão que teve, chocou-se. Ela não sabia o que fazer. Cuidadosamente, tentou os estilhaços do amigo, fragmentado sobre o piso do quarto, colher.

Infelizmente, todos os seus esforços foram em vão. Sr. Espelho foi enterrado à sete palmos do chão.

A garota invisível nunca se sentiu tão só. Inconsolável, sentou-se perto da porta (janela), onde derramou lágrimas tão invisíveis quanto ela.

Questionou-se, então, em meio a tanta solidão, se de fato era um ser existente e, aos poucos, suas pernas e braços começaram a ficar transparentes. Foi surpreendente.

Para ninguém foi importante o seu repentino sumiço. A polícia não foi atrás. Não havia notícias sobre ela nos jornais. Nem mesmo na escola, onde, agora, uma cadeira vazia havia, nenhuma criança sua falta sentia.

A garota invisível havia desaparecido. Ela havia ido embora, sem deixar rastros de que, algum dia, teria sequer vivido.

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