18 de maio de 2014

"Os Reinos de Cérebro e Coração" - Marília Prata

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Era uma vez, em um lugar não muito distante, mas também não tão perto assim, no continente de Ser Humano, dois grandes reinos: Cérebro e Coração. Embora independentes entre si, estes dois reinos, que eram os mais importantes dali, estavam constantemente a derramar influências políticas um sobre o outro, visto que a escolha de novos representantes para o exercício do poder poderia gerar consequências para ambas as regiões. Aliás, os efeitos de tais escolhas poderiam inclusive fugir do controle e ir muito mais além, atingindo totalmente a área do continente de Ser Humano.
Desde que Infância havia partido do reino de Coração, época que coincidiu com o desenvolvimento de Cérebro, o poder centralizou-se nas mãos de quatro sentimentos: Amor, Ira, Solidão e Tristeza. Destes, era Amor considerado o sentimento mais belo e perfeito de todos os já conhecidos, tanto era que seu número de admiradores, fosse em Cérebro, fosse em Coração, faria qualquer um se perder facilmente em meio às contas. Isso se dava pois, independentemente das circunstâncias, Amor sempre aparecia como um sentimento puro, ingênuo, inatingível por qualquer mal.
Desta maneira, quando não se encontrava no poder, Amor estava sendo procurado para tal cargo ocupar, o que, de certo modo, incomodava Ira, Tristeza e Solidão. Certo dia, então, os três sentimentos receberam uma estranha e inesperada visita. Inveja, uma velha feiticeira, que em todo lugar estava e de tudo sabia, apareceu no grandioso castelo habitado pelos quatro sentimentos, e, somente ao ter certeza de que aqueles eram os três únicos sentimentos no local, injetou em cada um deles um pouco de seu próprio sentimento.

- Ó, Grande Inveja, explicai-vos então, se como o Amor jamais conseguireis ser, de que maneira podereis vós atingi-lo, roubando-lhe todo o poder? – indagou Tristeza, melancolicamente.
Inveja silenciou-se, como se pensasse , embora já soubesse a resposta para a pergunta há muito tempo.

- Vamos, digas de uma vez! Toda essa demora já me faz aborrecido! – Ira apressava-a, afundando em impaciência.
Quanto à Solidão, esta nada disse ou nada fez, pois sozinha estava.

- Há algo, - ela começou, com sua voz rouca e fina, enquanto apoiava sua velhice em um aparentemente frágil pedaço de madeira – Que Amor sempre carregou nas costas, embora poucas sejam as ocasiões nas quais possamos vê-lo. Sofrimento é o seu nome, e ele é um fardo do qual o Amor jamais se livrará.
Os três sentimentos entreolharam-se momentaneamente, com a urgente necessidade de compreender como tal descoberta poderia lhes servir, o que tornou-se evidente quase de maneira instantânea. Quando, então, viraram para agradecer a velha feiticeira, ela ali já não mais estava; fora embora tão misteriosamente quanto havia surgido.
Passaram-se, assim, os dias, sem que, em momento algum, Amor desconfiasse do tal acontecimento. Pouco tempo depois, Razão, rei do reino Cérebro, foi apresentado a um mensageiro vindo de Coração, o qual, antes de partir, uma carta lhe entregou. O Rei leu-a sem demora, imaginando que o documento não poderia tratar de nada mais do que de uma terrível desgraça, e ele não deixou de estar correto, pelo menos não no seu ponto de vista.

- Tragam aqui meu irmão. Depressa! – gritou o rei para os serviçais Neurônios, os quais, sem delongas, obedeceram à sua ordem. Logo, Pensamento apareceu, postando-se respeitosamente em sua frente.
- Ordenou que me chamassem, meu caro irmão?
- Ó, Pensamento, não tenhas medo, aproxime-se de mim. Pressinto que algo trágico, muito trágico ocorrerá se eu de nenhum modo agir, e preciso de teus preciosos conselhos para me guiar.
- Caro irmão, tu tens calma, que não consigo entender-te. O que há neste papel que seguras com tanta angústia?
- Amor. Amor não é o sentimento tão perfeito que imaginávamos. Dentro dele existe o Sofrimento. Como pode, meu irmão, como pode! Dois sentimentos tão opostos a ocupar o mesmo espaço, como pode! Diga-me!
- Razão, ouça-me...
- Não! Não posso perder mais deste precioso tempo que me resta. Nosso reino, nosso continente inteiro poderá ficar completamente devastado se porventura o Amor der espaço ao Sofrimento. Não me entendas mal, nunca pretendi gastar estes poucos minutos à toa, mas preciso ir agora. Em breve estarei de volta.
E foi. Quando voltou, Amor havia sido cruelmente enxotado para fora do reino de Coração, com a ordem de nele nunca mais voltar, pois um sentimento supostamente tão bom não deveria ser capaz de causar tamanha dor e, se fosse para ser assim, não deveria permitir-se sequer sua existência.
O que ninguém esperava ou sabia era que do governo de Ira, Tristeza e Solidão iria prosperar algo ainda mais devastador e monstruoso do que qualquer um poderia imaginar. A conjugação de poderes dos três sentimentos teve como fruto a terrível Morte, cujas asas negras afundaram o continente nas mais profundas trevas.
Sua força maligna era inigualável. Consequentemente, muitos sentimentos não suportaram e desapareceram no reino de Coração, enquanto Cérebro foi tomado por uma enlouquecedora melancolia. Completamente arrependido de seus atos, Razão novamente saiu para se aventurar, agora com o intuito de trazer o Amor de volta, mas o que encontrou foi apenas Decepção e Derrota.

- Pensamento. – chamou o irmão. Já não tinha muitas forças.
- Pois não, irmão?
- O que querias tu me dizer naquele dia, antes que eu te interrompesse e fosse embora? O que eu precisava saber, porém estupidamente ignorei, e por que não posso de forma alguma encontrar o Amor? Responda-me, meu irmão. Tu, que tens provado ser tão superior a mim.
- Cara Razão. Há uma coisa que poucos sabem, talvez sequer cheguem a saber um dia. Embora o Amor possa acarretar o Sofrimento, ele é o único sentimento capaz de fazer com que nos sintamos verdadeiramente vivos, por menor que seja a duração desta sensação tão bela. Sem ele, estaríamos destinados a viver em um estado de Morte Eterna, e a conclusão a que se chega é a de que, às vezes, o sofrimento passageiro é indiscutivelmente melhor do que o nada constante. Quanto a achar o Amor, não te preocupes com isso. Ele é extremamente fiel ao seu reino, um dia retornará. De nada adiantará procurá-lo. É ele quem o encontrará.

Com estas palavras ditas, Pensamento saiu, deixando o irmão sozinho para que pudesse refletir.


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Marília Prata Marília Prata

A Melhor pessoa que você pode vir a conhecer nessa vida.
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